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Questão de Coerência e ética, por Deolinda Eleutério


Eventos organizados para salvar cães e gatos não podem oferecer alimentos derivados da exploração e uso de outras espécies de animais. Em eventos em prol de animais a alimentação precisa ser vegetariana estrita, pois é incoerente pedir ajuda para salvar umas espécies enquanto se oferece cadáveres bem temperados e "produtos" derivados de outras espécies de animais que são usados e sacrificados para servirem de alimento. Isto depõe contra a seriedade do movimento de defesa dos animais.

A coerência sobre os atos de protetores e defensores dos animais é cobrada pela sociedade e pela mídia constantemente. As pessoas onívoras que comparecem a um evento para ajudar cães ou gatos resgatados de maus tratos devem ter a oportunidade de experimentar uma refeição que não seja derivada da cruel exploração que sofrem os animais considerados "de consumo". Isto é difícil? Não. Na mesma ferramenta usada para divulgar "eventos em prol de cães e gatos", encontram-se centenas de receitas veganas. É só clicar. Há uma revista (dos Vegetarianos) nas bancas com receitas de alimentação vegana temática. Há vários chefs de couisine veganos que prestam esse serviço.

São problemas diferentes que envolvem as várias espécies de animais, e é preciso escolher em que segmento cada protetor acha que pode atuar, mas não pode deixar de estender o círculo da compaixão a todos os animais. Cães e gatos sofrem com abandono e maus tratos. São vítimas da falta de políticas públicas para o controle populacional. São vítimas do comércio ilegal e desenfreado e das pessoas que os consomem como animais de companhia e estimação. Bois, vacas, frangos, galinhas, porcos, peixes etc, são considerados - depois de torturados e mortos - alimento para a espécie humana. Estes não se encontram abandonados pelas ruas mas também é preciso resgatá-los do paradigma de que são animais cujas VIDAS nada valem a não ser para extração de suas carnes, leite e ovos.

Então, por questão de coerência e ética, em eventos em prol de animais a alimentação deve ser vegetariana estrita - sem carnes ou outros produtos que tenham origem na exploração, sofrimento e morte de animais. Ser vegetariano estrito e vegano é difícil? Não para quem já viu cenas de abatedouros, galpões de criação e pocilgas e, se não viu, pode imaginá-las. Mas, se ainda assim o círculo da compaixão tiver dificuldade para se formar, basta imaginar cães e gatos sendo criados e abatidos para o consumo de suas carnes.
Para ser vegano é preciso mudar hábitos e isto pode ser difícil numa sociedade especista que baseia a produção de alimentos na exploração dos animais. Há que ter atenção constante, conhecimento, informação e disciplina. Veganismo é um caminho que cada pessoa - que se compadece do sofrimento de todos os animais - deve trilhar a seu tempo buscando conhecimento sobre alimentação e outros produtos de uso que não derivem do sofrimento e da exploração de animais.

*Deolinda Eleutério é Ativista pelos Direitos Animais, Terapeuta Holística (faz atendimentos para animais desde 2001) e organiza o site informativowww.gatoVerde.com.br em defesa dos Direitos Animais desde 2004.

“Os animais existem por seus próprios propósitos e interesses e não para o uso e exploração que os humanos fazem deles.”

Veganos: um basta ao consumo animal


Na mesa do café da manhã do administrador de empresas Vladimir Ferreira, 32 anos, geralmente estão pão integral com melado de cana ou tomate seco com patê de tofu, suco ou chá. No almoço, arroz integral e feijão, tofu grelhado, batata frita, refogado de legumes com PVT (proteína de soja granulada) e polenta ao sugo. "De verdura eu só como espinafre de vez em quando e gosto muito de couve de bruxelas. Também como quase todo dia macarrão ou lasanha ao sugo, com PVT e brócolis, e de sobremesa, à noite, duas ou três frutas", acrescenta Vladimir, que faz parte do grupo dos veganos há 10 anos.

Diferente do vegetariano, que só não consome carne, o vegano é aquele que não come carne e nenhum produto de origem animal, como peixes, mariscos, ovos, leite e laticínios. A indústria do vestuário (peles, couro e camurça) também é excluída da vida do vegano, conforme explica Vladimir. "Os veganos boicotam, ainda, a exploração de animais em experiências de laboratórios, nas aulas de vivissecção e no entretenimento humano em circos, zoológicos e rodeios", completa ele, que também é estudante de alquimia e de medicina natural.
Antes de se tornar vegano, Vladimir era vegetariano convicto. "Cresci com a ideia de que podia viver bem sem comer carne e, assim, não patrocinava o sofrimento dos animais nos abatedouros. Eu sempre ouvia falar dos veganos, mas não entendia o porquê deste extremismo. Achava meio absurdo. Quando a internet se popularizou e tive mais acesso à informação descobri que a exploração dos animais vai muito além da carne", comenta. O administrador relata que demorou um pouco para se adaptar ao veganismo, mas conseguiu. "Foi aí que surgiu aquela vontade de fazer algo pelos animais e achei que divulgar a informação era o melhor caminho. Então criamos um site (www.veganos.org), com informações básicas, no qual vendemos camisetas, na esperança de divulgar o veganismo no Brasil."

Vladimir ainda acrescenta que há vários grupos veganos no País, alguns ligados a ONGs, outros atrelados a escolas religiosas e outros ligados à ALF (Animal Liberation Front). "Na cidade de São Paulo, somos um grupo pequeno e independente, com cerca de 15 pessoas. Nosso trabalho se dá principalmente com a venda de camisetas e fazemos, eventualmente, palestras em escolas e centros comunitários sobre o veganismo", ressalta. Segundo ele, os grupos convergem para um mesmo objetivo: o de abolir a exploração dos animais - sejam os de consumo, sejam os utilizados em pesquisas ou em entretenimento.  

Sofrimento animal - Para Vladimir, o veganismo é uma postura ética pessoal, baseada na não-exploração de todos aqueles que são capazes de sofrer e ter emoções. "Em geral, todos pedimos e lutamos por justiça e agimos com a filosofia de respeitar o próximo. No entanto, se pensamos um pouco no que fazemos aos animais, podemos concluir que tudo o que não desejamos para nós, praticamos contra eles: aprisionamento, tortura, exploração e extermínio cruel", analisa. "Se não fazemos isso diretamente, pagamos para alguém fazê-lo, quando vamos ao mercado ou ao açougue e compramos carne. Os veganos descobriram uma coisa óbvia: somos nós, consumidores dos produtos de origem animal, que patrocinamos todo o sofrimento dos animais nos matadouros e fazendas de criação pelo mundo", destaca Vladimir.

Para ele, há condições de ter uma vida saudável no Brasil, sem que seja preciso o consumo animal. "Não acho justo um animal morrer em desespero pra nos alimentar", justifica. No próximo dia 1º de novembro será comemorado o Dia Mundial do Vegano. Em São Paulo ocorrerão passeatas, exibição de vídeos sobre o veganismo na Avenida Paulista, oficina de capacitação de voluntários e festival de cinema em Curitiba, cujo tema é "Libertação dos Animais".

Por Paula Mestrinel Jornal de Jundiaí

Especismo eletivo, por Sônia T. Felipe


especismo eletivo - sonia t felipeNeste texto, vou tratar do especismo eletivo, o irmão já idoso da xenofobia, o ódio ao que nasce em outro território que não o nosso.
É preciso mergulhar na formatação moral da tradição para entender por que tratamos os animais do jeito que os tratamos. Nós sempre os tratamos como coisas. E nos achamos os tais.
Há uma montanha de carnes, sangue, urina, fezes, vômitos, vísceras, peles, patas e focinhos, acumulada todos os dias ao redor do mundo por conta da matança de animais para virar bifes e toda sorte de “produtos” industrializados destinados ao consumo humano.
Especismo eletivo é isto: eleger uma ou duas espécies animais como prediletas para estima e compaixão. Apegar-se a esses animais e pensar que a predileção por uma espécie de animal, uma raça de animal ou por um pedigree é tudo o que “devemos” moralmente aos animais em geral. É pensar que amar esse animal em particular já compensa a dor e o tormento causados aos que não se enquadram na espécie eleita nem atendem aos requisitos da raça predileta.
Quem pratica o especismo eletivo não se dá conta de que todo seu amor “pelos animais” (uma categoria tão abrangente que chega a reunir formigas, baratas, aves, répteis e vertebrados, como se entre uma e outra dessas milhões de espécies não houvessem mistérios sequer estudados, traduzindo em cada indivíduo uma singularidade não repetível) de fato se esgota na fronteira do modelo no qual o corpo do animal eleito para estima veio à vida.
E as pessoas que se agarram a “gatinhos” (sempre no masculino e diminutivo!) ou a “bichinhos” (idem), se dizem protetoras “dos animais” em geral, como se “seu” cãozinho ou o “seu” gatinho fossem representantes de todos os indivíduos animais de todos os tipos e formatos espalhados por todas as regiões do planeta.
Cães e gatos não representam todos os espíritos animados transeuntes em corpos desenhados conforme a necessidade de cada um daqueles espíritos. E, especialmente os cães e gatos domados pela convivência com humanos já não representam sequer o espírito genuíno canino ou felino, evoluído naturalmente para expressar sua singularidade enquanto espécie animal. Os humanos os têm como prediletos porque esses espíritos já estão antropomorfizados.
Precisamos pensar profundamente sobre nossa condição animal. Talvez seja bom começar imaginando a hipótese de ter nascido com a sensibilidade, a inteligência, a racionalidade, a afetividade, a emocionalidade animal-humana, mas com um corpo desenhado de outro modo, do tipo jacaré, onça, porca, perua, ovelha, cabra, lagarta, sabiá, galinha, pata, égua, girafa ou outra qualquer.
Todas as demais espécies animais possuem uma linguagem singular. Mas, do alto de nossa soberba e com tamanha inteligência, ainda não fomos capazes de traduzir para a linguagem humana o que os animais estão a dizer o tempo todo.
Portanto, tudo o que a gente quisesse comunicar aos humanos sobre o que se passa em nossa mente, confinada ao formato material do corpo visto como diferente do humano pelos humanos, bateria nessa muralha física e mental da surdez humana para todo tipo de linguagem animal que não seja a humana em suas diferentes línguas.
Imaginemos isto: que nascemos com a mente animal, mas em um corpo cujo formato os animais humanos foram treinados a desdenhar. E ali estaríamos, enquanto espíritos, confinados a essa cápsula que é o corpo material. Estaríamos o tempo todo a dizer aos humanos o que sentimos com o que eles nos fazem de mal.
Mas nosso dizer, por não se traduzir em nenhuma das línguas da linguagem típica dos humanos, que têm palavras para todo tipo de sensação, nunca seria ouvido. Os sons que pronunciássemos não seriam ouvidos, porque o ouvido humano é limitado nessa frequência.
Ao longo da história, nos textos religiosos que tratam os animais de modo especista elitista, os filósofos e teólogos antropocêntricos afirmam que os animais são mudos. Projetam nos animais sua surdez seletiva. E se acham os tais!
Para superar o especismo elitista (que diz que o único animal digno de respeito é o humano), e o especismo eletivo (que abraça um animal mas passa a faca no bife do outro), é preciso imaginar-se nascido com um corpo cujo formato externo difere do formato dos corpos dos indivíduos da espécie humana.
E ali dentro, aprisionado a esse corpo, há um espírito animado. Um espírito senciente, pulsando pela vida, mas confinado e ameaçado todo tempo pela lâmina da morte.
Os humanos, com seus corpos desenhados de outro modo que não o daquele a quem entregam a senha da morte na esteira do abatedouro, se proclamam superiores. Eles simplesmente se apoiam sobre duas patas com cinco dedos. Eles têm as outras duas patas, as dianteiras, também com cinco dedos, livres, para manipular o mundo, transformá-lo, e, com isso, transformar-se continuamente.
Mas o que os humanos mais têm feito não é transformar-se, transformando sua mente carregada de conceitos obsoletos em uma mente aberta, que acolha todos os animais no sentimento do respeito pela vida e sua singularidade.
O que os humanos mais têm feito, tendo duas das patas livres para operar, criar e recriar seu espírito, é usar essas duas patas livres, com seus cinco dedos cada, para matar e empilhar os restos mortais desses outros animais que não nascem no formato material considerado digno de respeito.
Todos os corpos materiais merecem respeito. É neles que o espírito singular de cada espécie de vida se manifesta. Não há escolha eletiva que torne um corpo mais digno de respeito do que o outro.

Publicado originalmente na fanpage do Livro Galactolatria: Mau Deleite


Violência contra os animais domésticos: somatofobia, por Sônia T Felipe


"A somatofobia é uma doença na qual o sujeito revela que os demais que o rodeiam nada mais são do que objetos que ele posiciona na cena para lá e para cá, a seu bel prazer, para atender apenas aos seus impulsos fóbicos. E esses, geralmente, na mente somatofóbica, são impulsos destinados a agregar mais força ao sujeito, que se nutre de suas vítimas até exaurir nelas a chama da vida. Mulheres vítimas da somatofobia e seus animais de companhia e estima sabem perfeitamente do que estamos tratando aqui. O que não ensinamos ainda, a todos, é como livrar-se das garras da mente somatofóbica, pois o próprio somatofóbico também não aprendeu como livrar-se de seus impulsos somatofóbicos. Ninguém lhe ensina isso na família somatofóbica, na escola somatofóbica, na sociedade somatofóbica."
Sobre a relação entre violência contra humanos e contra animais, somatofobia, escrevi três artigos há uns cinco anos, publicados na Pensata Animal. São artigos que resultam de uma pesquisa à qual dei início no ano de 1993, portanto, há vinte anos. Hoje é um dos temas dos meus estudos, que, se concluídos a contento, serão transformados em livro sobre a violência contra os animais de qualquer espécie, humana e não-humana.
A somatofobia (do grego soma = corpo, matéria; e phóbos = aversão, hostilidade, horror, medo) é uma patologia moral de fundo estruturante, que leva o sujeito insatisfeito a concluir que qualquer ser vivo à sua volta que não atenda a seus impulsos ególatras merece ser punido fisicamente, chegando essa punição até mesmo ao assassinato. Essa patologia responde pela violência doméstica, a violência que o agente desencadeia sobre os corpos de quem vive em sua intimidade familiar, não fazendo distinção entre os corpos da mulher, das crianças e dos animais detidos no lar para companhia, guarda ou estima.
Esse tema ainda é tratado de forma incipiente em nosso país. Quando a ANDA noticia episódios de maus-tratos aos animais, seja na rua ou nos domicílios, a maior parte dos comentários supura ódio ao agente somatofóbico, sem que alguém jamais tenha se dedicado à literatura que trata da questão há mais de vinte anos nos países de língua inglesa. O assunto é sério. De uma gravidade que aqui sequer se imagina.
No território estadunidense, cientes de que o abuso contra o corpo de qualquer animal é indício de uma patologia grave, o governo inclui todo abusador de animais na lista de psicopatas que precisam ser observados cautelosamente. A polícia passa a monitorar a vida de qualquer humano que tenha maltratado animais, pois sabe que um abusador de animais é um somatofóbico insatisfeito que abusará, maltratará ou mesmo matará qualquer animal, quero dizer, um animal de qualquer espécie, incluindo a humana, assim que seus desejos e impulsos forem contrariados por alguém. A forma de expressão da frustração e do próprio fracasso, nos indivíduos somatofóbicos, é a agressão contra aquilo que eles julgam dever ser punido por contrariar sua vontade: o corpo de alguém indefeso ao seu ataque, de alguém próximo, acessível. Esse corpo quase sempre é o da mulher, da criança, do cão ou do gato, detidos no domicílio do somatofóbico.
Aqui no Brasil ainda acham que abusar de animais é algo inofensivo… cultural… algo de humanos ignorantes. Não é. A maldade não tem objeto determinado, nem se manifesta apenas em pessoas ignorantes. Também pessoas altamente instruídas podem ter a estruturação psicológica e moral somatofóbica. Basta lembrar o caso da enfermeira, mulher de médico, que espancou sua cadela por três dias até que a vida fosse eliminada daquele corpo. Nesse caso, a somatofobia é direcionada contra o corpo de quem contraria a vontade do indivíduo insatisfeito. Geralmente ela se manifesta claramente no âmbito doméstico.
Como, no entender da mente somatofóbica, o corpo dos outros tem que atender aos desejos e interesses do eterno insatisfeito, e, convenhamos, isso é algo que não acontece 24 horas por dia durante todos os dias do ano ou todos os anos da vida desse indivíduo, ele faz o que pode para destruir esse corpo que não lhe obedece, que não se submete ao seu poder ególatra.
Não interessa ao somatofóbico se o corpo que resiste ao seu impulso e não atende seus comandos é o de um gato, um cão, uma criança, a companheira, a avó… Somatofobia é doença grave. Chamamos no senso comum de maldade. É doença moral grave. Precisa de tratamento para refazer os circuitos do raciocínio que, quando saudável, permite ao sujeito compreender que os demais seres vivos ao seu redor não estão aí para atender a qualquer impulso seu, a qualquer ordem sua, a qualquer comando seu, ou para satisfazer qualquer carência sua.
Cada ser vivo está aqui neste planeta para viver sua vida. Nesse viver pode ser que seja possível construir vínculos de amor que resultem em troca, enriquecendo ambos os lados. Mas o amor não pode ser brandido com armas na mão. As armas são dilacerantes. Elas desfazem os fios que ligam os seres amados aos seus amantes. Isso vale para humanos em sua interação com os não-humanos.
A somatofobia é uma doença na qual o sujeito revela que os demais que o rodeiam nada mais são do que objetos que ele posiciona na cena para lá e para cá, a seu bel prazer, para atender apenas aos seus impulsos fóbicos. E esses, geralmente, na mente somatofóbica, são impulsos destinados a agregar mais força ao sujeito, que se nutre de suas vítimas até exaurir nelas a chama da vida. Mulheres vítimas da somatofobia e seus animais de companhia e estima sabem perfeitamente do que estamos tratando aqui. O que não ensinamos ainda, a todos, é como livrar-se das garras da mente somatofóbica, pois o próprio somatofóbico também não aprendeu como livrar-se de seus impulsos somatofóbicos. Ninguém lhe ensina isso na família somatofóbica, na escola somatofóbica, na sociedade somatofóbica.

ANDA

A vingança não é justa nem ética!, por Sônia T Felipe

Todos os dias lemos notícias sobre humanos tratando animais com crueldade, abandonando-os, negligenciando cuidados devidos a eles, torturando-os, explorando-os, abusando de sua vulnerabilidade física, devastando o ambiente natural no qual os animais precisam viver, matando-os para churrascos, em diversões e todo tipo de violência que se pode imaginar. Todos os dias lemos sobre isso e nos deparamos com as imagens horrendas desse holocausto sem fim.
Também lemos todos os dias comentários de internautas clamando por vingança. Praguejando contra os humanos cruéis e violentos. Desejando o mesmo para eles. Esses textos mostram uma terrível identificação das pessoas com o sujeito violento, não no sentido em que elas o abominam por fazer o que faz, mas no de se colocarem, com seu ódio e ferocidade, exatamente no lugar emocional e moral do outro que dilacera o corpo dos animais indefesos.
Se promulgamos os princípios da ética abolicionista vegana, queremos que as práticas institucionalizadas da maldade contra os animais, contra todos os animais sejam finalmente extintas da face da terra. Mesmo sabendo que isso não acontecerá por mágica, nem por magia, é isso que almejamos. Que um dia nenhum ser senciente sofra qualquer intervenção em seu corpo com o propósito de feri-lo para dar satisfação a qualquer outro humano.
Desejar ver uma pessoa violenta sendo violentada é desejar que no corpo dela sejam feitas feridas para que ela sinta a dor e sofra tanto ou mais do que sua vítima sofre ou sofreu com seu abuso ou agressão. Se pensamos e sentimos assim, nos identificamos com os violentadores. Repetir sua façanha não nos liberta da cadeia da maldade, pelo contrário, nos enreda na malha do gozo unilateral com a dor do outro.
Custa ensinar às pessoas que causar dor e sofrimento a um animal, não importa a espécie, é um ato abominável para o animal que sofre a interferência humana, e para o humano que se reproduz como ser violento? Custa muito trabalho pedagógico.
Muitos estão nesse momento sofrendo todo tipo de abuso físico no lar, proveniente da mãe ou do pai, ou de um deles com a cumplicidade do outro. Não é desejando que esse pai e essa mãe sofram o mesmo tipo de abuso que vamos corrigir a mentalidade concebida na forma hierárquica especista elitista. A saída ética é mostrarmos aos humanos vítimas da violência que essa existirá enquanto eles compartilharem o sentimento da raiva, do ódio e da vingança com aqueles que as torturam. Dá revolta ler notícias de violência contra os animais? Dá. Como lidar com isso? Fazendo algo para defender os animais, sem acrescentar ainda mais violência à cena. Essa é a virada que todos somos chamados a fazer para eliminar da nossa cultura a violência somatofóbica que a domina.

O que é Vivissecção ? por Simone Nardi

Muita gente ouve falar sobre isso mas não faz a mínima ideia do que seja, vamos esclarecer a necessidade urgente de da criação de leis anti-vivissecção.
Vivi é vivo e secção cortar. Vivissecção é cortar um animal vivo. Com o tempo o termo foi abrangendo outras coisas e significa qualquer procedimento onde você pega um animal vivo, induza um determinado estímulo nele e obtém um outro em troca. Existe a vivissecção invasiva e não invasiva. Se eu só colocar um porquinho da Índia,por exemplo, para tirar uma chapa de raio-x, é uma vivissecção não é invasiva e nem pode ser considerada antiética. Mas, por exemplo, se eu pegar um animal e cortá-lo, ou injetar qualquer coisa nele ou fazê-lo tomar uma droga oralmente, isso é vivissecção.
É desse modo que os médicos burlam a Lei de Crimes Ambientais e continuam a praticar seus congressos de pós-graduação com animais, normalmente cães de CCZs. É crime abandonar um cão, deixá-lo sem alimento, água ou abrigo.Mas parece não ser crime médicos e cientistas torturarem animais em nome da falsa ciência, até porque hoje existem centenas de métodos alternativos para os quais eles simplesmente fecham os olhos, bem como os juízes fecham os olhos para as leis de Crimes Ambientais e deixam tal massacre prosseguir.
Se assassinato e tortura são crimes, porque, então, matar e torturar animais “em nome da ciência” ainda é aceitável? A pergunta sequer faz sentido a partir da visão antropocêntrica da sociedade ocidental no século XX: Os animais estão no mundo para serem usados pelos humanos. Dessa maneira, nem se questiona o sacrifício de bichos para uma suposta causa maior, a pesquisa médica. Assim, cruéis e desumanos experimentos em animais são aplicados todos os dias. Nas universidades, em cursos de biologia, veterinária e medicina. Em centros de pesquisa que utilizam verbas públicas e em laboratórios de fábricas de produtos químicos, de limpeza e cosméticos. Milhares de animais morrem anualmente em nome da ciência. São, principalmente, macacos, gatos, cães, ratos e coelhos.
Muitos nomes da ciência, ainda desejam continuar a matança, pois se negam a aceitar as novas mudanças técnicas, tudo para eles gira em torno das vacinas, como se todos os experimentos fossem apenas isso.Esquecem porém que a crueldade deles vai além das meras vacinas, das quais sempre usam como desculpas.
Dissecar animais vivo não cura a humanidade.
Quebrar patas de animais para observar o stress não cura a humanidade.
Queimar olhos de coelhos não cura a humanidade.
A humanidade é seu próprio câncer, quando se recusa a aceitar que os animais sentem dor e que nós não temos qualquer direito sobre eles, a não ser aqueles que nos outorgamos.
São hipócritas aqueles que ainda hoje dizem serem necessário o uso dos animais para o aprendizado de cirurgias, exames, perfumes, novas armas e até mesmo na alimentação. São hipócritas porque sabem a verdade e mentem para si mesmos e para o mundo. São fracos porque não querem mudar, tem preguiça de mudar, mas tempo virá em que, nas palavras de Tom Regam, os laboratórios de pesquisas terão uma placa escrita:
“Proibida a entrada de animais”
Antropomórficos e antropocêntricos, os animais são livres e precisam ser respeitados, apesar de vocês, isso um dia se tornará realidade

Comida suicida


Comida suicida, por definição, é “qualquer representação de animais que agem como se desejassem ser consumidos”, segundo Ben Grossblatt, o criador do blog instigante e perturbador de mesmo nome (suicidefood.blogspot.com). Durante cinco anos, Grossblatt tem coletado imagens de animais em anúncios onde estão ansiosos para participar da sua própria morte. De suínos que alegremente cortam fora partes de seus próprios corpos, a um peru entupindo-se de molho e ansiosamente fervendo-se vivo – uma infinidade de imagens de comida suicida que elucidam de quais maneiras a publicidade de fast food procura disfarçar e distanciar consumidores da experiência verdadeira de comer animais.


Descrevendo explicitamente animais como participantes ativos em suas próprias mortes, imagens de alimentos suicidas procuram implicitamente:

Dessensibilizar os espectadores – por banalizar a vida e a morte do animal em um frequente pastelão, ou de maneira “bem-humorada”.

Acalmar a culpa, culpando a vítima - o animal ou é mostrado matando a si próprio ou seduzindo o espectador a comê-lo(a) dando a impressão de que o animal quer morrer para o bem maior da humanidade, age para absolver a culpabilidade dos consumidores.

Desvalorizar a vida animal não-humana – reduzindo a vida de um indivíduo a um objeto ou mercadoria que pode e “deve” ser comprado, vendido e consumido.

Reificar normas de gênero e valores patriarcais - através do uso de imagens sexualmente sugestivas, tanto mulheres quanto animais não-humanos são retratados como algo, em vez de alguém.

Aprenda a ler e seja um ativista melhor

Foto: Marcio de Almeida Bueno
Os escândalos envolvendo empresas ligadas à carne e fornecedores de leite podem ser novidade para o público, que já esqueceu o que aconteceu ontem, mas para quem acompanha as questões da causa animal estas notícias não causam espanto. São comuns e correntes. Não é a primeira vez que se descobre leite contaminado, carne podre, excessos desta ou daquela substância, muitas delas proibidas na Europa mas largamente usadas aqui, onde o consumidor ainda não aprendeu a ler rótulos nem a fazer boicotes. Infelizmente.
Ler um rótulo não é apenas tomar conhecimento do que ali está escrito. É tentar descobrir, por exemplo, o que se esconde atrás da frase ‘pode conter’, ou daquela conhecida ‘contém traços de’, e a lista dos traços muitas vezes ultrapassa mais de dez ingredientes de origem animal. Mesmo diante disso, muitas pessoas ignoram esse aviso e seguem comprando esses produtos. Pura preguiça, já que existem muitos outros sem traços. Para mudar algo, é necessário saber sobre o assunto, conhecer leis e regras o máximo possível, e não apenas se entregar a pacotes de biscoitos ou outras bobagens ‘aprovadas nas redes sociais’.
No decorrer dos dias, nem sempre temos tempo disponível e certas coisas não podemos evitar. A filosofia de vida que é ser vegano inclui também saber e obter informações sobre as coisas, para não ficar repetindo lendas urbanas ou sem conhecer as mudanças que ocorrem todos os dias. Empresas são vendidas, compradas, fazem testes em animais, depois desistem de fazê-los, mudam rótulos e criam novas marcas, adicionam ingredientes, fundem-se, mimetizam-se. Também adquirem ‘selos’ duvidosos, para que o consumidor-autômato, que apenas coloca o produto no carrinho, pense que aquilo faz o bem. Veganos são pessoas comuns que podem não ter tempo, mas é importante não se acomodar. É preciso ser rigoroso consigo mesmo, para poder cobrar do mundo as mudanças, mesmo que no mundo elas sejam poucas, lentas ou incoerentes. Pensadores geniais já disseram isso em melhores palavras do que estas, e eles sabiam o porquê.
Um grande frigorífico possui diversas marcas de produtos alimentícios e de higiene, por exemplo, e estas marcas são bastante difundidas em redes sociais como ‘veganas’ e ‘sem ingredientes de origem animal’. As empresas tais não mentem quando dizem que não fazem testes em animais, mas não informam que a renda destes produtos vai diretamente para o grande frigorífico. E não precisam informar, pois basta entrar no site da empresa para descobrir isso.
E não é aqui neste artigo que você vai descobrir que empresas são essas. É buscando no pai Google (ou em outros buscadores), pesquisando e lendo rótulos. Existem diversos sites falando disso, e as mídias sociais não são a única fonte fidedigna de informação que existe.
Aprender a ler não é apenas saber Português. É entender nas entrelinhas, é buscar informações e fazer comparações, ter senso crítico e divulgar numa boa, sem brigas e sem ranços. Não se ganha nenhum centavo insistindo em consumir produtos com traços, produtos de empresas que fazem testes e afins, até por que o que elas querem é justamente isso: consumidores fiéis, sem senso crítico, que de quebra já fazem propaganda grátis quando teimam em consumir e divulgar as marcas.

ELLEN AUGUSTA VALER DE FREITAS - ANDA

Afogando o ganso, lavando a égua


A origem de muitas expressões e vocábulos vem da prática milenar e comum de se abusar sexualmente de animais. Como este é um tabu, difícil de se abordar porque ninguém ‘sabe’ do que estamos falando, encontramos sempre uma explicação mais bonitinha para certas expressões idiomáticas.
Não sou a favor de se abolir o uso de gêneros nas palavras ou outras proposições desse porte (mas acho a ideia interessante, pois é preciso criar novos termos), creio que a língua é machista simplesmente por vir de uma cultura machista milenar que se preserva até nos genes. A mudança, portanto, tem de ser na estrutura social e mental. Não adianta mudar a pronúncia ou ignorar palavras que existem. Depois da mudança essencial, a língua, viva, muda naturalmente.
Um livro que aborda corajosamente o assunto é ‘Ecce Bestia’, do psicólogo Ezio Flavio Bazzo. Segundo suas palavras, os animais são “adotados, adestrados, amados, rejeitados, abusados, escravizados, enjaulados, acorrentados, feitos de cobaia e por fim encaminhados ao matadouro”. Na frase “tenho visto muitas mulheres deslumbrantes ao lado de verdadeiros animais”, ele usa a expressão animais de forma pejorativa, exatamente para que visualizemos uma realidade inquestionável. Se existem os bárbaros e eles convivem entre nós, alguém vive ao seu lado e consente com toda a barbárie. Nunca se questiona o passado/presente de ninguém, nunca se usa o pensamento crítico. Enredada na sociedade que a quer patética, a mulher jamais usa do senso observador, nunca constrói um modelo feminino real. Apenas se entrega à paixões cegas, com verdadeiros trogloditas, machistas disfarçados de ‘intelectuais libertários’, cínicos, falsos ou pequenos tiranos. De pronto, perde todo o contato com outras mulheres, não quer ouvir nem ver as demais, que considera tão inferiores quanto si. Por isso é que os homens a querem tão infantil (até mesmo na hora do sexo), vestida de menina e desprovida de qualquer atitude adulta.
E as crianças? Pessoas dos 15 aos 40 anos, imaturas, vêm gerando essas criaturas inocentes que caem de paraquedas neste mundo hostil, vitimizadas com as imposições do consumo de carne, coisificação e inferiorização do que é diferente ou frágil!
“Minha intenção é de apenas ‘navegar’ pela ‘paixão animal’ desses hominídeos e, se possível, entender por que é que se conscientemente fazem tanta questão de colocar-se bem acima das bestas, inconscientemente, na intimidade, precisam buscar lá no estábulo ou lá no galinheiro a sua auto-estima, o seu gozo e a realização dos seus desejos”, escreve Bazzo. A ignorância feminina sobre o assunto é tamanha que, até mesmo em muitos livros sobre o assunto, escritos por mulheres, não há referência sobre as que abusam de animais.
E o conjunto chamado pelos religiosos de ‘família natural’ é que vai gerar crianças e jogá-las no mundo, entregá-las de bandeja a abusadores de animais, de crianças, e às escolas que as tratam como idiotas e não sabem lidar com o assunto. Calma, seu preconceituoso pacato, que é contra os Direitos Humanos e que vibra em frente à TV, não estou falando dos ‘pobres-pretos-putas’ que estão nas delegacias, prisões e masmorras brasileiras, muitas vezes torturados para confessar crimes de estupros/abusos. (Quem lê e ouve as notícias sabe do que se trata). Estou falando de pessoas acima de qualquer suspeita. Ricas, respeitáveis, que vão na sua congregação religiosa e acariciam suas crianças. Estou falando de quem está solto, aí perto de sua casa, e que você não sabe quem é por que não tem senso crítico, está muito mais preocupado em gritar ‘morte e tortura aos presos’ em frente aos programas medíocres da televisão. Estes pais ausentes que deixam seus filhos frequentarem a casa, e outros lugares onde vivem aqueles de quem puxam o saco, jamais vislumbram que a violência contra crianças e animais tem uma raiz comum e difícil de se dizimar.

Os trechos entre aspas foram retirados do livro Ecce Bestia – Libertinagem com animais, de Ezio Flavio Bazzo, Narcisus publicadora & Cia – Brasília DF – Brasil, outubro de 2001.

Nosso canibalismo moderno


Há algum tempo venho pensando sobre nossa relação com os outros animais.
Estou convencido, hoje, de que apesar de a história ter enfatizado o abismo criado entre nós e eles[1] (e chamá-los a todos simplesmente “animais” indistintamente já denota um preconceito arraigado), a despeito de sua aparência, comungamos com eles características e sentimentos fundamentais. Trocando em miúdos, uma postura especista – de discriminação com base na espécie –  não se sustenta.
Em outros tempos, a medida que os europeus conheciam novos povos, aquelas pessoas “exóticas” diferentes eram muitas vezes classificadas separadamente do restante da humanidade do “mundo conhecido”. Quando digo separadamente quero dizer que havia um debate para saber se essas pessoas eram ou não seres humanos[2].
Podemos ainda pensar naqueles seres humanos que eram classificados como “monstruosos”[3], coisa que hoje, ao menos em meios minimamente esclarecidos é impensável, quer dizer, ninguém recusa reconhecer a humanidade a um exemplar da espécie humana unicamente pelas suas diferenças anatômicas: a monstruosidade, de um conceito para deformidades físicas, hoje, se tornou uma metáfora para a deformidade moral.
O filme de David Lynch, O homem elefante, dá uma mostra de excepcional beleza de como a maldade por trás dessas separações e classificações, no caso dos monstros humanos, operava. Talvez algo parecido ocorra em relação aos animais: o fato de distingui-los radicalmente de nós faz com que nos tornemos insensíveis ao seu sofrimento silencioso.
Há autores, como Mary Midgley[4], James Rachels[5], Peter Singer[6], Richard Ryder[7], Tim Ingold[8] ou Stephen Clark[9] que, já há alguns anos vêm tentando argumentar contra essa separação radical. Pode-se dizer que todos eles, em alguma medida, pactuam da ideia de que, depois das teorias de Darwin, impossível sustentar aquela separação e, assim, como consequência lógica de sabermos que temos parentesco próximo, que partilhamos muito da mesma condição que os outros animais, uma nova ética na relação com eles deveria se impor.
Sem discordar disso, é preciso reconhecer que, seja como for, não foi o que aconteceu desde Darwin. Na verdade, de sua teoria da evolução foram feitos os usos mais diversos, ela sendo usada para justificar tanto posturas belicistas quanto pacifistas, tanto uma ética predatória e de competição quanto uma ênfase na cooperação e na solidariedade[10].
Vejo com frequência muitas pessoas que estão convencidas da necessidade de se levar os animais moralmente em conta, mas que não conseguem transpor suas conclusões do pensamento à prática. Isso, certamente, se deve a hábitos arraigados: é difícil mudar um costume, e esse fator cultural, na hora de fazermos as análises desse tipo de situação, deveria ser levado em conta[11]. Plutarco, em seu texto seminal notou: “é mais difícil abandonar algo que contraria nossos costumes do que algo que contraria a natureza”[12].
Talvez, não seja tão simples para as pessoas comuns fazerem deduções lógicas e então agirem em conformidade com tal. O que não deve ser um motivo para que o trabalho teórico deixe de ser feito, mas, ao contrário, é um motivo para que ele seja complementado.
Para além de bons argumentos (que sobram), estratégias criativas e simpatia são bem vindos. A arte, que há muito sabemos não poder ser isenta (e essa é uma asserção de fato e não de valor), certamente tem muito que contribuir, justamente por dizer aquilo que não pode ser dito de outra forma e produzir nas pessoas efeitos que não se pode alcançar de outros modos.
Deixo então para vocês um breve poema, “Canibalismo atual”, daquele que talvez seja o principal poeta brasileiro vivo, Affonso Romano de Sant’Anna:
CANIBALISMO ATUAL
Affonso Romano de Sant’Anna
No futuro
Ergueremos um monumento
ao animal desconhecido.
Por ora, dissecamos suas entranhas
em laboratórios e açougues
afiando nossas lâminas
na pedra de seus rins.
No futuro um remorso monumental.
Agora, insensíveis, racionais,
nos refestelamos sobre as vísceras das presas.
No futuro se envergonharão de nós,
de nós que nos julgávamos modernos
– modernos canibais.
SANT’ANNA, Affonso Romano. Poesia reunida (1965-1999). v.2. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 155-156.
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[1] THOMAS, Keith. O homem e o mundo natural: mudanças de atitude em relação as plantas e aos animais (1500-1800). Trad. João Roberto Martins Filho. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
[2] Cf. INGOLD, Tim. Humanidade e animalidade.
[3] Cf. FOUCAULT, Michel. Os anormais: curso no Collège de France (1974-1975). São Paulo: Martins Fontes, 2001;  DAVIDSON, Arnold. The horror of monsters. In: SHEEHAN, James; SOSNA, Morton (Ed.). The Boundaries of Humanity: Humans, Animals, Machines. Berkeley:  University of California Press, 1991. p. 37-64
[4] MIDGLEY, Mary. Beast and man: the roots of human nature. London: Routledge, 1979.
[5] RACHELS, James. Created from animals: the moral implication of Darwinism. Oxford: Oxford University Press, 1990.
[6] SINGER, Peter. Todos os animais são iguais. In: GALVÃO, Pedro (Org.). Os animais têm direitos? Trad. Pedro Galvão. Lisboa: Dinalivro, 2010. pp. 25-49.
[7] Cf. entre outros, Todos os seres que sentem dor merecem direitos humanos.
[8] INGOLD, Tim. Humanidade e animalidade.
[9] CLARK, Stephen. The political animal. London: Routledge, 2002.
[10] Cf. CROOK, Paul. Darwinism, war and history: the debate over the biology of war from the ‘Origin of Species’ to the First World War. Cambridge: Cambridge University Press, 1994. FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999. PICHOT, André. A sociedade pura: de Darwin a Hitler. Trad. Maria Carvalho. Lisboa: Instituto Piaget, 2002.
[11] TAYLOR, Choë. Foucault and the ethics of eating. In: Foucault Studies. n. 9, Sept. 2010. p. 71-88. Disponível em: http://rauli.cbs.dk/index.php/foucault-studies/article/view/3060. Acesso em 20/03/2013.
[12] PLUTARCO. Sobre comer carne. Tradução do francês disponível neste blog.

LUIZ FELIPE M. CANDIDO - ANDA


O que há de errado em comer ovos? por Vera Cristina Cristofani

Quando conversamos com as pessoas sobre o veganismo, é comum concordarem que é errado causar sofrimento, dor e matar os animais para produzir carne e laticínios, mas muitas delas não veem nenhum problema em comer ovos, porque isso não envolve sofrimento e morte de animais. Todavia, ao nos informarmos sobre o assunto, entendemos que há inúmeros problemas, e eles são verdadeiramente horríveis, envolvidos nesse hábito.
Um deles, por exemplo, é que os pintinhos machos são moídos vivos, mortos com gás, eletrocutados ou sufocados, pois eles não têm valor comercial para a indústria por não produzirem ovos e não crescerem rápido o suficiente para virarem carne. Outras práticas comuns da indústria de ovos é a debicagem que consiste em cortar uma parte do bico sem o uso de anestésico e a manipulação do ciclo de postura das galinhas pela privação de alimento que causam sofrimento horrendo às aves.
Máquina de moer pintinhos


No Brasil, milhões de galinhas poedeiras são mantidas em gaiolas de arame superlotadas, as chamadas gaiolas em baterias, onde cada galinha tem um espaço de chão menor do que uma única folha de papel tamanho carta. Elas não podem realizar a maior parte dos seus comportamentos naturais, como empoleirar, fazer ninho, tomar banho de areia, ciscar, explorar o ambiente, correr, alongar e bater as asas ou simplesmente caminhar. As galinhas sofrem estresse psicológico e muitos danos físicos, que incluem fraqueza e quebra dos ossos, perda de penas e outras doenças. Essa severa restrição ao movimento físico leva à má formação dos pés e à distúrbios metabólicos, incluindo osteoporose e danos hepáticos.
Para tentar melhorar essa situação — que, na verdade, só pode ser realmente melhorada quando pararmos de consumir e usar os animais como mercadorias, como produtos, como escravos e adotar o veganismo– há campanhas para encorajar a indústria a adotar a produção de ovos de galinhas “livres de gaiolas”. Entretanto, essas campanhas apenas buscam uma mera redução no sofrimento das galinhas poedeiras, pedindo que elas sejam retiradas do confinamento intensivo das gaiolas em bateria.
Essas campanhas têm focado principalmente na capacidade da galinha de abrir as suas asas. Contudo, os ovos de aves “livres de gaiolas” continuam sendo produzidos por aves cujos bicos são amputados até quase pela metade sem anestesia. Além disso, as galinhas poedeiras, embora “livres” das gaiolas de bateria, não ficam livres. Normalmente, elas são colocadas em enormes galpões onde ficam espremidas entre outras dezenas de milhares de aves, vivendo sobre o próprio estrume e vitimadas por uma série de doenças dolorosas relacionadas à postura de ovos intensiva e ao confinamento, e até pelo canibalismo.
Embora as galinhas sadias possam viver pelo menos cinco anos, mesmo as poedeiras que são criadas “livres de gaiolas” são consideradas “gastas” pela indústria após um ano de postura, quando, então, são abatidas para serem aproveitadas em comidas processadas.
Assim, não se engane. Há problemas em comer ovos, e há problemas com o uso de animais em geral. O interesse do animal é de não ser usado, explorado e morto para o nosso benefício, seja na alimentação, em testes, em entretenimento ou de qualquer outra forma.
Podemos dizer “não” ao ciclo de violência, injustiça e morte de animais que sofrem, sentem dor, prazer e querem viver ao adotar o veganismo, e participar, dessa maneira, do processo de abolição da escravidão animal, porque isso é, o mínimo, que eles merecem.

O Mito da Proteína, por George Guimarães

Mas, de onde você tira suas proteínas? Esta pergunta parece ser, para aquele que a faz, o único argumento necessário para enfrentar o vegetarianismo. As pessoas em nossa sociedade parecem ser obsediadas por proteína, mesmo aquelas que sequer sabem definir o significado da palavra. No entanto, a proteína é um dos nutrientes mais fáceis de serem obtidos.

Adotando-se hábitos alimentares inadequados, uma pessoa pode desenvolver uma deficiência de vitamina A, vitamina C, cálcio, mas é quase impossível desenvolver uma deficiência protéica em uma dieta caloricamente adequada. Para que possamos melhor compreender como isto acontece, devemos calcular nossas necessidades diárias de nutrientes como porcentagem de calorias.

Cada grama de proteína fornece quatro calorias. Portanto, se uma batata que pesa cem gramas fornece 75 calorias e 1,8 grama de proteína, podemos dizer que ela fornece 7,2 (1,8 vezes 4) calorias na forma de proteína, ou 9,6% (7,2 dividido por 75 vezes 100) das calorias totais na forma de proteína. Aplicando-se o mesmo cálculo ao brócolis, o trigo, o arroz, etc, obtemos os resultados vistos na tabela ao lado.

O NRC (National Research Council) é um órgão do governo americano responsável pela elaboração de guias alimentares e determinação das necessidades nutricionais do indivíduo de acordo com sua idade e estado fisiológico (RDA). As informações por ele produzidas são utilizadas em vários países de todo o mundo, inclusive no Brasil.

Segundo o NRC, um adulto do sexo masculino requer uma ingestão diária de 2.700 calorias, onde devem se incluir 56 gramas de proteína. Estes 56 gramas de proteína representam 224 calorias das 2.700 calorias totais, ou seja, cerca de 8,3%. Para adultos do sexo feminino, a recomendação é de 2.000 calorias, onde devem ser inclusos 44 gramas de proteína, ou cerca de 8,8%. Temos então que a recomendação adotada mundialmente é de que se obtenha de 8 a 9% do total de calorias do dia na forma de proteína.

A tabela ao lado mostra claramente que os alimentos de origem vegetal fornecem muito mais do que 8% de suas calorias na forma de proteína, exceto as frutas. Se o indivíduo ingerir calorias suficientes a partir destes alimentos, ou seja, se ele ingerir, por exemplo, 2.700 calorias comendo apenas batatas, brócolis e trigo durante o dia, suas necessidades protéicas serão supridas mais do que satisfatoriamente, a não ser que ele adote uma dieta baseada exclusivamente em frutas.

Veganismo, por George Guimarães

Veganismo é vida saudável 

O veganismo é, acima de tudo, uma escolha por uma vida saudável, não apenas do ponto de vista de saúde, mas também social e moralmente. É saudável para quem pratica, é saudável para o meio ambiente que é poupado do peso da produção de alimentos de origem animal e, obviamente, é saudável para os animais que são criados e mortos para alimentar pessoas.


Dieta Saudável
Os benefícios de uma dieta vegano continuam a ser revelados a cada dia em estudos científicos e em experiências individuais.

Uma dieta isenta de produtos de origem animal é isenta de colesterol, baixa em gordura (especialmente gordura saturada) e rica em fibras, vitaminas e minerais. Isto significa uma enorme diminuição no risco de doenças como arteriosclerose, infarto, derrame, diabetes, câncer, constipação, entre outras. Além disto, por eliminar alimentos altamente contaminados por antibióticos, hormônios, pesticidas, além de alimentos alergênicos como o leite, este estilo alimentar também evita o surgimento de diversos tipos de alergias e intolerâncias. A dieta vegano também é geralmente baixa em calorias, o que significa um melhor controle de peso e a distância dos desconfortos causados pela obesidade.
Veganismo e Violência
Há muitos motivos para se adotar um estilo de vida vegano e também são muitas as formas em que o veganismo é expresso, mas o veganismo pode ser sempre definido da seguinte maneira: um estilo de vida que evita toda forma de exploração e violência, sejam estas contra animais, humanos ou o planeta no qual vivemos.

Poucos são aqueles que se iniciam no veganismo por uma questão meramente de saúde, apesar deste ser um aspecto importante deste estilo de vida e um dos melhores argumentos em seu favor.

O aspecto ambiental atrai a atenção de muitos que entram em contato com o veganismo pela primeira vez, recebendo a aprovação mesmo daqueles que se recusam a adotá-lo. O fato de mais alimentos vegetais poderem ser produzidos no mesmo espaço e com a utilização de menos recursos quando comparados com a produção de alimentos de origem animal é, dos argumentos em favor do veganismo, certamente o mais lógico e irrefutável.

No entanto, o maior número de pessoas que abraçam o veganismo é composto por aquelas que se sentem tocadas ao saberem que sua alimentação até então era dependente do sofrimento de animais inocentes, mortos para satisfazer uma necessidade que elas agora sabem não ser essencial. O despertar pode vir no contato com o bezerro no sítio do amigo, ao saber que em muitos países asiáticos os cachorros são considerados uma iguaria e então perceber que seu animal de estimação poderia ser o jantar de alguém, ou na descoberta tardia de que seu pintinho de estimação na infância -aquele que crescera demais para continuar morando em casa e sua mãe disse ter mandado para a chácara do tio- houvera, em realidade, tido seu fim naquele almoço de domingo (do qual você também participou). Uma visita ao matadouro também costuma dar um empurrãozinho para cair a ficha.

Enfim, a descoberta da realidade sempre traz consciência e a consciência sempre traz moralidade. Imagine a confusão de valores pela qual passa uma criança que tem que aprender que o boi, o porco, a galinha, tão dóceis e amáveis, são os heróis de seus filmes favoritos e, ao mesmo tempo, são também o seu jantar. "Como assim? Amigo e jantar ao mesmo tempo?" A criança pode não buscar descobrir, em um primeiro momento, como o seu herói ou amigo foi parar no prato de jantar. Talvez ela busque em sua fantasia uma forma "amigável" de se tornar jantar. Talvez eles sejam tão amigos e amáveis que eles voluntariamente sacrificam-se para alimentar seu amigo humano. Um verdadeiro ato de heroísmo! Mas eles logo buscam a verdade, quanto mais perto da realidade, mais perto da consciência.

A criança pode lidar com uma explicação fantasiosa de como uma parte de um boi foi parar em seu prato, mas a realidade nua e crua de um matadouro não deixa espaço para fantasias. É consciência instantânea: comer um animal após ter visto um matadouro está imediatamente fora de questão. É natural perceber que algo est'aerrado. Faça um experimento simples: coloque uma maçã e um coelho no quarto da criança e deixe-a a sós com eles. Entre após alguns minutos e veja quem vai ser comido e quem vai ganhar um nome e um penteado novo.

Situações como estas que confundem um personagem de história infantil com um alimento congelado, heroísmo com sofrimento, docilidade com violência, acabam por distorcer valores em formação pela criança.

Diversos estudos já demonstraram a relação entre violência animal e violência humana. Aqui está um bom exemplo: serial killers têm, em 90% dos casos, história de maus tratos com animais na infância. O desprezo pela vida de um animal acarreta na perda pela santidade da vida humana. Crianças aprendem valores de compaixão e respeito através da relação que elas têm com os animais. Compaixão pelos animais, compaixão pela humanidade. Se animais podem ser mortos para satisfazer uma necessidade, então qualquer forma de vida pode também.

É claro que isto não se manifesta largamente na sociedade, pois existem regras sociais e de comportamento às quais aprendemos a obedecer. Obviamente, não são todos que cresceram comendo carne que se sentem à vontade para matar pessoas ou que se envolvem em atos de violência, grupos sectários, atividades que exploram trabalho escravo ou infantil e tantas outras formas de violência presentes ao nosso redor. No entanto, a mensagem para a criança que está formando estas regras pelo contato com o ambiente é uma de menosprezo à vida, de descaso ao sagrado. O impacto que isto tem na relação entre famílias, ideologias, sociedades, países, religiões, é imensurável.

Imagine um mundo livre de violência contra animais e você verá um mundo livre de violência contra humanos!
Dr. George Guimarães
Nutricionista
e-mail: dr.george@guiavegano.com